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Sentimentos à mesa: quando as relações familiares são perdidas

Em um ritmo tão acelerado, pessoas não tem mais tempo de cultivar o hábito de se reunir em família. Até aquelas atividades mais simples como comer à mesa foram perdidas. É preciso rever os conceitos.

Fim de tarde, a mãe chama seus filhos para jantar. A mesa já está pronta: café fresquinho e torrada. Ela prepara tudo com carinho e pede para que os filhos esperem o pai para começarem a comer. Após todos estarem em seus lugares e uma oração em agradecimento a Deus ser feita, eles desfrutam de um momento muito importante: a refeição em família.

Você deve está pensando: “Essa é uma típica descrição de um filme americano, e daqueles bem antigos. Com essa correria toda em que vivemos é quase impossível desfrutar de uma refeição em família”. “Comer à mesa? Nem sei mais o que é isso”.

A correria do dia – a – dia tem deixado as pessoas sem tempo para muitas coisas, até mesmo para a família. Tudo tem se tornado automático. As pessoas fingem que escutam, fingem que entendem, que se preocupam. Abraçam rapidamente, dão respostas no automático. Tão automático que o sentimento vai sendo deixado de lado.

Mas será que a culpa é mesmo da falta de tempo ou é questão de prioridades? Existe uma enorme diferença entre as duas. É como diz o ditado: “Para quem não quer, qualquer desculpa serve”.

Parar, e dedicar nem que seja alguns minutos do dia para conversar com o (a) esposo (a), saber como foi o dia dos filhos, abraçar, e dizer que ama, se tornou um hábito em extinção para muitas famílias. Ninguém conversa, ninguém sabe da vida do outro, são estranhos dividindo um mesmo teto.

Jônatas Éder, presbítero da IEADPE, lembra que seus pais sempre cultivaram o hábito de se reunir em família. “Nossa família sempre preservou este costume, Papai e Mamãe (Josias e Sandra) sempre nos incentivavam a fazer o culto doméstico todos os dias. Também vejo que em nossa época era mais simples, não existiam tantas distrações, muitas vezes a nossa brincadeira era fazer cultos, e quase sempre usávamos até nossos brinquedos para isso! Também lembro que em uma determinada época quando começamos a crescer (pré-adolescência) e papai devido ao trabalho não estava em casa, ele fazia questão de todo o final do mês preparar uma escala de culto aonde tínhamos o escalado e o que deveria ler o texto Bíblico e trazer uma explicação rápida da passagem. Acredito que isso fica marcado na mente de qualquer criança, são princípios que passam a nortear ações e ajudam a moldar o caráter”, afirmou.

Para ele, a principal importância de cultivar esses momentos é “preservar a comunhão entre a família. Até porque o momento da alimentação revela muito sobre o lar, quando ele está em harmonia se passa junto por dificuldades, se divide o pouco e crescemos juntos! Mas, infelizmente quando existe uma divisão entre os membros de uma família fica difícil vencer os desafios sozinho! Creio que o culto doméstico seja hoje a principal saída para as famílias vencerem os desafios desta era de solidão online”, disse.

Imagine só uma família em que os adultos saem cedo para trabalhar e os filhos para estudar. Passam o dia inteiro sem se ver e muito pouco se comunicam. Após tantas atividades, chegam em casa, à noite, e se juntam na sala ou durante o jantar. Mas apesar da presença física não há diálogo, cada um pega seu smarthphone e vai conversar com outras pessoas no Facebook ou Whatsapp. Esse tipo de atitude enfraquece as relações familiares e é um risco para a vida da criança ou do jovem.

“A família vem sofrendo bastante os ataques da chamada era pós-moderna, aonde muitas praticas estão sendo pouco a pouco deixadas de lado. Infelizmente o tempo corrido, os aparelhos eletrônicos e as mídias sociais têm criado um mundo paralelo para cada indivíduo, e sendo o ser humano um ser social, ele acabará por incluir-se em um novo mundo; quase sempre virtual, isolando-se daqueles que realmente importam. Cabe a nós ensinarmos a nova geração da importância de manter a família unida em volta da mesa e da palavra de Deus, para assim vencermos os grandes desafios de nossa era”, comentou o Pb. Jônatas Éder.

O ser humano tem o costume de deixar tudo para depois. Isso se chama procrastinação, e não serve só para tarefas, como também para sentimentos. As pessoas sempre acham que podem abraçar depois, podem dizer que amam depois, podem fazer companhia depois, podem se importar depois. Mas e se o depois não existir? Como sabemos quanto tempo durará a nossa vida e a vida de quem amamos?

É tudo uma questão de prioridade: Amar agora, conversar agora, sorrir agora, abraçar agora. No livro de Provérbios, capítulo 27. 1, o sábio Salomão nos adverte: “Não presumas do dia de amanhã, porque não sabes o que ele trará”. Não vamos deixar para depois, o desfrutar de uma vida amorosa em família com a presença de Deus.

“Ensinem a seus filhos desde cedo a importância da união em família, a mesa é um lugar propicio para isso, lá podemos olhar no rosto um do outro, falar de assunto pertinentes a toda a família, resolvermos as lutas e problemas que atingem a um membro em particular e sentir-se seguro! O culto doméstico é o momento aonde ensinaremos que nossa fé transcende lugares, como o próprio Senhor Jesus ensinou (Jo. 4. 23), é no lar que com nosso exemplo e dedicação ensinaremos a esta geração que está surgindo a importância de se ter um relacionamento íntimo com Deus, Ele também habita em nosso lar, não podemos esquecer isto”, concluiu o Pb. Jônatas.

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* Publicado originalmente no Adnews 67 (Setembro/2017)