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Reforma Protestante, 502 anos em que a Igreja decidiu voltar à sua origem

O Espírito Santo atestou através da afirmativa do apóstolo Paulo que: “…vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou Jesus…” (Gl 4.4). O tempo em que a Bíblia apresenta como sendo perfeito foi propício para o nascimento do cristianismo. Nessa época havia 3 civilizações com características dominantes sobre a terra, a saber: os judeus, os gregos e os romanos. Consequentemente, os judeus pela sua espiritualidade revelaram ao mundo o Verdadeiro Deus, e por esse motivo, o Messias Jesus Cristo, Salvador da humanidade nasceu dentre eles; já os gregos, com a sua herança intelectual facilitaram para o mundo o recebimento dos argumentos doutrinários da fé Cristã; e finalmente os romanos, com a sua pujança política e domínio mundial contribuíram para que o evangelho chegasse aos lugares mais longínquos do planeta. Todavia, ao longo dos anos e por meio de muitas perseguições e ataques, a Igreja do Senhor sofreu embates que propuseram a descaracterização da sua forma original e missão, porém, enfrentando os mais ardis dos investimentos, ela resistiu e superou as grandes investidas, e por isso fazemos menção às suas conquistas.

O florescer do Cristianismo

O primeiro século da nossa era foi conhecido pelo mundo cristão como o Período Apostólico. Nessa época os apóstolos ainda estavam vivos e apesar das inúmeras perseguições, eles foram inspirados pelas palavras do Senhor Jesus Cristo que disse: “…nesse mundo tereis aflições…” (Jo 16.13), e assim exortavam  as igrejas “…a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos” (Jd 1.3). Assim, a Igreja sobreviveu ao período em que ela foi extremamente perseguida. Propositalmente, o imperador Nero em meados de julho de 64 d.c., mandou atear fogo em Roma, onde 10 dos 14 bairros existentes naquela cidade foram cruelmente incendiados. Os 04 bairros restantes eram justamente os bairros onde viviam muitos cristãos, e não havendo tido indícios de destruição naquelas localidades, Nero decidiu, estrategicamente, culpar os cristãos ampliando assim, a sua implacável perseguição aos discípulos de Jesus Cristo.

Entre os anos de 70 à 80 d.c., o imperador Vespasiano inaugurou o Coliseu Romano, que ficou conhecido até aos nossos dias por se tornar o “Anfiteatro de Perseguição e Morte dos Cristãos”. Nesse tempo tão cruel, os cristãos foram lançados dentro da arena, onde muitos deles estando vestidos com peles de animais eram devorados por animais selvagens e outros eram pisoteados; muitos cristãos foram martirizados em lutas sangrentas e torturados. Esse tipo de matança era um espetáculo para os moradores romanos.

Em seguida, o imperador Domiciano que foi considerado o segundo Nero, se destacou por enviar o apóstolo João, o último dos apóstolos ainda vivo à Ilha de Patmos, ali, esse teve a Revelação do Apocalipse. Somente genuínas convicções poderiam gerar tamanha fé e firmeza em Cristo. Essa fé em Jesus fazia com que os seus discípulos se entregassem totalmente pela causa do evangelho. Dessa forma, a Igreja crescia em meio às circunstancias adversas. Nesse período de crescimento e de perseguições à Igreja vivenciou o surgimento de muitas heresias e por isso os pais da igreja encontraram a necessidade de combater os falsos ensinamentos, dando-se assim o início do Período Patrístico, onde os líderes da igreja também foram conhecidos como pais apostólicos, ou seja, os discípulos que aprenderam diretamente dos apóstolos ou tiveram contato com essa geração defenderam veementemente o evangelho, formalizando assim a ortodoxia cristã, através de concílios, apologéticas e ensinamentos que combatiam os falsos ensinos que surgiam em torno da pessoa de Cristo e do seu Evangelho. Contudo, se faz necessário destacar que nem as perseguições, nem os falsos ensinos desfocavam a Igrejareformad do seu alvo.

O Período de Trevas

O quarto século é caracterizado pela mudança radical que o cristianismo experimentou quanto as perseguições vividas até então. Precisamente no ano 313 d.C., o imperador Constantino, no momento de uma árdua batalha teve a experiência de ver uma cruz e nela escrito: “com esse sinal vencerás!”. Daí ele faz um voto dizendo: “…se eu vencer essa batalha o rumo da minha vida será mudado…”. Por isso que ao derrotar seus inimigos, ele se converteu ao cristianismo. A partir de então, a perseguição aos cristãos cessou e através do Edito de Milão o imperador concedeu a liberdade de culto aos cristãos. Assim, o cristianismo tornou-se a religião do estado. Ou seja, os cristãos que outrora eram torturados, descriminados e martirizados agora estavam sendo valorizados e respeitados. As humilhações deram lugar às honras; os desprezos deram lugar aos reconhecimentos; a igreja que outrora sobrevivia nas cavernas do império, que tinha a sua história registrada nas catacumbas de Roma, agora está no palácio, nas casas dos dignitários e até mesmo em templos que antes pertencia a outros deuses e que agora é lugar de culto exclusivamente dedicado a Cristo.

Dessa época até a idade média, a Igreja de Cristo experimentou um momento sombrio e muito obscurecido, pois se converter ao cristianismo não era mais um ato de fé que impulsionava a renuncia do pecado, e o desejo de obter a vida eterna em Cristo, mas nessa época, ser cristão era uma atitude de mera conveniência. Muitos aristocratas e intelectuais que desejavam entrar na igreja e obter status social por pertencer à religião do estado, eram batizados sem pelo menos entender o sentido da doutrina da imersão; outros que nem se quer eram convertidos, foram infiltrados no grupo religioso e galgavam posições eclesiásticas. A igreja estava vivendo o seu momento mais vergonhoso da sua história, pois homens embriagados e adúlteros corrompiam o povo em nome de Deus. A Igreja havia se afastado definitivamente dos ensinamentos bíblicos, da sua origem e missão.

A preparação de um grande mover

Nesse momento a Igreja encontrava-se vigorosa e influente diante do contexto social, pois politicamente ela constituía e destituía reis; na área econômica, os mais abastados traziam as suas grandes contribuições financeiras e pagavam incalculáveis quantias a fim de terem os seus pecados perdoados; na ciência, a igreja detinha o conhecimento com exclusividade, apontando as novas pesquisas e descobertas conforme seus próprios critérios. No entanto, mesmo estando bem e vivendo um momento favorável diante dos homens, essa igreja diante de Deus se encontrava distanciada, decaída e necessitada de uma restauração, de um ajuste, de um conserto, de uma reforma.

Por esse motivo, o Deus eterno que comanda a história e tem o tempo em suas mãos fez surgir na Europa um movimento que revolucionaria as gerações posteriores denominado de Renascimento Cultural. Esse evento vem ao encontro dos propósitos divinos a fim de cumprir os seus desígnios, pois a Igreja que se encontrava forte politicamente, agora teria que saber lidar com os novos reis que começaram a ser constituídos no Reino Unido, na França e em outras nações sem a bênção papal; a economia que era centralizada pela Igreja, ver surgir expedições marítimas que através de Portugal, Inglaterra e Espanha descobrem “novos mundos”, fazendo com que outras nações se deliguem do julgo eclesiástico de Roma; a ciência através de Galileu Galilei vivencia novas descobertas fora do que a Igreja ditava como científico; a arte que tinha até o tipo de escultura determinada pela igreja, ver Leonardo Da Vince e Michelangelo e outros influentes tirando da igreja essa hegemonia.

Tempo de Reforma

Mesmo com a evidência desse período obscuro na história da Igreja, Deus nunca deixou uma geração sem resposta, por isso, Ele mesmo incendiou os corações de homens como John Wycliffe, professor da Universidade de Oxford e teólogo, que acreditava que a bíblia deveria ser traduzida na língua de cada povo a fim de promover maior compreensão do plano de Deus para cada homem. John Huss na Boêmia, também foi precussor da Reforma e grande discípulo de John Wycliffe, pois defendia os seus ideais e doutrina, por esse motivo morreu queimado, porém em suas últimas palavras, disse: “…hoje vocês matam um ganso (que é o seu sobrenome Huss em sua língua natal), porém em menos de um século Deus levantará um cisne que vocês não poderão queimar…”. Nesse caso, ele se referia ao profetizar, ao que Deus haveria de fazer no futuro através de Lutero. Ao seu tempo, Deus também levantou Jerônimo Savanarola em Florença, na Itália, que impactou a sua geração com pregações que convocavam o povo a voltar ao Deus da bíblia.

Ao tempo que vários homens estavam sendo usados por Deus em diversos lugares, situações e tempos, e que essa instituição religiosa ia perdendo a sua soberana hegemonia devido a Renascença, o Senhor levantou Martinho Lutero que surgiu no cenário eclesiástico cristão totalmente inquieto e inconformado com o mercantilismo religioso que oferecia indulgências, ou seja, compra de perdão de pecados, e doutrinas que destoavam das irrefutáveis verdades bíblicas. Martinho Lutero não se levantou como insurgente ao sistema, pois ele não almejava uma revolução, mas uma reforma na maneira de pensar e expor as verdades de Deus para o homem. Ele acreditava pelo embasamento bíblico que o homem era única e exclusivamente justificado diante de Deus, através da Obra Redentora de Cristo Jesus realizado na Cruz do Calvário e entendia que era dever da Igreja apresentar a graça salvadora em Cristo sem nenhum tipo de manipulação ou distorção das Escrituras. Lutero compreendia que nada mais seria suficiente para a restauração da comunhão do homem para com Deus, senão unicamente a obra de Cristo. Por isso que no dia 31 de outubro de 1517, num dia totalmente estratégico em que muitos fiéis cristãos e cidadãos alemães se arregimentavam para ir à catedral de Wittemberg para o ato religioso, como de costume por motivos do dia de finados, Lutero decidiu expor as 95 teses na porta daquele templo a fim de alcançar o maior número de pessoas através de seus argumentos. As suas teses continham as verdades bíblicas que haviam sido abandonadas pela igreja e que deveriam ser retomadas por todos os fiéis. Por esse ato, Lutero provocou o maior cisma da história da Igreja e o seu rumo foi definitivamente alterado. A reforma tão ansiada tomou lugar e a Igreja decidiu voltar aos princípios bíblicos e a sua origem.

O legado

A Reforma Protestante, por sua vez, enobrece e enaltece a nossa história como cristãos, pois homens de vida devota, sensíveis à voz do Espírito Santo e dispostos a sofrerem por causa do evangelho dedicaram-se por isso. Esses testemunhos inspiram-nos a desejarmos unicamente a Cristo, pela Palavra, através da Fé, mediante a Graça, dando somente a Deus, Glória. Esses homens lutaram arduamente fugindo de espadas, enfrentando ameaças e dedicando-se de forma ininterruptas aos estudos e pesquisas a fim de defenderem a fé Cristã, muitos desses escreveram a história com o próprio sangue e levaram a Igreja à centralidade das Escrituras, conduzindo-a mais uma vez a Deus.

A Reforma Protestante não foi algo restrito ao mundo cristão, mas influenciou todas as camadas da sociedade. Através da exposição genuína da Palavra de Deus nações inteiras e grandes ícones da humanidade, verdadeiros vultos da história foram destacados a partir desse evento. A ciência, a política, a economia, a arte, a religião, em fim, o mundo não foi mais o mesmo depois da Reforma Protestante. Por isso, é importante afirmar que exatamente nesse mês de Outubro que nos recordamos que há 502 anos a igreja decidiu voltar às suas origens. As bênçãos de Deus vieram a todos, quando a Igreja voltou à Palavra do Senhor. Hoje, em dias de pluralidades e diversidades devemos seguir o mesmo caminho daqueles que desejavam a reforma: devemos buscar unicamente a Fé, a Escritura, a Cristo, a Graça e dar somente a Deus a devida Glória.

Ev. Shóstenes Pereira

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* Publicado originalmente no Adnews em Outubro/2017, em comemoração pelos 500 anos da Reforma.