Amor negado: A triste realidade de pais que são abandonados pelos filhos

Filhos que abandonam os pais, maltratam, excluem. Por que eles fazem isso? O reconhecimento de todo amor que receberam pode vir tarde demais.

Imagine a seguinte situação: Um casal de idosos, com problemas de saúde e impossibilitados de realizar as atividades do cotidiano, sozinhos. Esse casal tem três filhos, mas eles estão ocupados demais para ajudá-los a se vestir, fazer suas refeições e passear com eles. Os dois vivem uma vida solitária. Os netos? Eles até têm, mas são adolescentes que não gostam de conversar com idosos porque “eles repetem sempre a mesma história”. A correria de todos os dias também não os deixa ligar, sequer, para dar um bom dia.       

Um dia, após poucas, mas necessárias cobranças desse casal aos seus filhos, as crianças que foram criadas com amor e sacrifício, e que agora são donos da própria vida, deixaram os idosos em um asilo. “Esse é o melhor lugar para vocês. Aqui não ficarão sozinhos. Não temos tempo para cuidar de vocês”, afirmaram e viraram as costas.

Triste? Chocante? Injusto? Poderia trazer inúmeros adjetivos para essa situação acima citada, que não é nada rara. Filhos abandonam pais de todas as idades, seja em asilos, em casa, ou até afetivamente. É um corte de laços que traz muita dor àqueles que um dia sacrificaram tempo, e se dedicaram tanto aos filhos.

Sobre os motivos que levam essas pessoas a abandonarem os pais, a psicóloga e neuropsiquiatra, Amanda Sales, explicou em entrevista ao ADNews que “As pessoas cada vez mais pensam apenas nelas mesmas. Uma pessoa que desde cedo não internalizou a regra de reciprocidade, onde estará, dentre outros, o sentimento de gratidão, será um adulto com sérias dificuldades nos relacionamentos. Especialmente naqueles que exigirão mais entrega, sendo esse o caso desses filhos que abandonam seus pais”.

A população está se tornando cada vez mais idosa. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2016, o número de idosos com 80 anos ou mais pode passar de 19 milhões em 2060. Boa notícia, visto que a expectativa de vida dos brasileiros tem aumentado. Mas o problema, é que nem sempre esses idosos conseguem o suporte que necessitam, seja da família ou do governo.

O artigo III, do Estatuto do Idoso garante que: “É obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do Poder Público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária”. O Estatuto do Idoso protege idosos a partir dos 60 anos.

Se o abandono afetivo já acontece por filhos que não respeitam, e nem querem mais a presença dos pais, estando eles ainda jovens, quando esses pais ficam idosos é muito mais comum ver esses filhos perdendo a paciência e os abandonando.

Este ano, o Brasil ficou chocado com o caso de um homem, Roberto Elísio Coutinho de Freitas, que foi pego em flagrante agredindo fisicamente e verbalmente à mãe de 84 anos. Nos vídeos, compartilhados em redes sociais, o homem verbaliza frequentemente, xingamentos à mãe que chora se perguntando o por quê de ele está agindo daquela forma. Ele segura fortemente o braço da mãe e diz para ela parar de chateá-lo. Ele reclama o tempo inteiro e diz que vai abandoná-la.  Após assistirem as imagens, milhares de pessoas se revoltaram e pediram a prisão do agressor. O homem foi preso e alegou problemas mentais.

Apesar de este homem afirmar várias vezes que não estava agredindo a mãe, as imagens provam o contrário. Para os efeitos de Lei, considera-se violência contra o idoso qualquer ação ou omissão praticada em local público ou privado que lhe cause morte, dano ou sofrimento físico ou psicológico.

Diante de tanto sofrimento, esses idosos chegam a achar que o asilo é realmente a melhor opção para terminarem suas vidas. A companhia de pessoas desconhecidas, e o cuidado de voluntários acabam por se tornar o motivo de esperança e alegria de quem não sabe mais o que é ter uma família.

No caso do abandono afetivo, onde os pais não têm mais o amor dos filhos, mesmo que eles ainda morem dentro de casa, a dor do afastamento vai consumindo a mente daqueles que nunca entenderão as causas do abandono. É como valorizar e amar alguém que não dá a mínima importância. Alguém tão próximo que se tornou um desconhecido.

“O abandono é um dos lutos mais sofridos para qualquer indivíduo. Caso não seja devidamente elaborado, pode levar ao adoecimento mental, como quadros depressivo-ansiosos, por exemplo, assim como doenças psicossomáticas”, afirmou Amanda Sales.

Casos assim exemplificam o significado de ingratidão: Falta de reconhecimento. Filhos que abandonam os pais, que não ligam, que não demonstram amor, que não abraçam, que não dão nem um simples sorriso e, muito menos, revelam a gratidão por todo amor que receberam, um dia vão perceber que aqueles que tanto ignoraram, deixaram para depois, e não deram importância, são os que mais vão querer ao seu lado…Que não percebam tarde demais, quando os elogios e reconhecimentos não poderão mais ser ouvidos.

_______________________

* Publicado originalmente no Adnews 64 (Julho/2017). 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *