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A busca pelo corpo perfeito: cilada para os distúrbios alimentares

Por não gostar da própria imagem refletida no espelho, a busca compulsiva por um corpo “dos sonhos” pode ser o caminho mais rápido para os transtornos da alimentação.

Cuidar do nosso corpo e da nossa imagem é primordial para nossa saúde física e psicológica. Uma das principais formas de fazer isso é manter uma boa alimentação. Comer bem e nas horas certas contribui muito para uma maior qualidade de vida. Em contrapartida, a má alimentação pode causar vários problemas à nossa saúde, entre eles os distúrbios alimentares.

Distúrbios alimentares são perturbações no comportamento alimentar que podem causar emagrecimento extremo, obesidade ou outros problemas físicos. Em entrevista ao ADNews, a nutricionista Renata Ferreira falou sobre o assunto. “Existem dois principais tipos de distúrbio alimentar: anorexia, em que o paciente tem baixo peso, deixa de se alimentar para emagrecer e, muitas vezes, relata repulsa e medo do alimento; e bulimia, compulsão alimentar em que o paciente geralmente tem sobrepeso ou peso normal — no momento da crise, o consumo alimentar é extremamente exagerado, o paciente chega a ingerir, em uma refeição, a quantidade de alimentos suficiente para um dia todo. Após a crise, acontece o arrependimento, e o paciente provoca vômito, utiliza laxantes ou até mesmo realiza exercícios físicos compulsivos.”

Estima-se que, ao longo da vida, entre 0,5% e 4,2% das mulheres terão anorexia nervosa; e 2,5%, bulimia nervosa. Mesmo quadros mais leves desses distúrbios, que são caracterizados por uma profunda insatisfação com o corpo, pela busca por dietas e cirurgias plásticas e até por recursos extremos para emagrecer (vomitar, usar laxante, utilizar moderadores de apetite, praticar exercício físico compulsivo), podem alcançar 15% das mulheres. Geralmente a doença se desenvolve na adolescência e atinge também, em menor proporção, os homens.

“Não existe uma única causa para o desenvolvimento dos transtornos alimentares. Há estudos indicando que o fator genético pode ser um dos motivos, porém os motivos mais comuns são os fatores psicológicos: a baixa autoestima, a falta de confiança, a depressão e o comportamento de exclusão do meio social aumentam a prevalência da doença. A obsessão de chegar ao corpo magro e estrutural, imposto como padrão de beleza na sociedade, é um grande gatilho para o início do distúrbio alimentar”, afirmou Renata.

Os sintomas mais comuns de anorexia são perda exagerada de peso, exclusão das principais refeições, atividade física intensa, amenorreia (bloqueio no ciclo menstrual), anemia, visão distorcida de si e depressão; e os da bulimia são compulsão alimentar, uso repentino de laxante, exercício físico exagerado, irritação frequente na garganta e na gengiva (por conta do vômito forçado) e oscilação de humor.

Ana (nome fictício usado para preservar a identidade da entrevistada) começou a apresentar sintomas de bulimia aos 17 anos de idade. Com 22 anos e em fase de tratamento, ela conta como tudo começou. “Eu sofria muitas brincadeiras de mau gosto por ser gordinha. Não me sentia bonita e hoje ainda não me sinto bem comigo mesma, eu me sinto gorda. Já cheguei a pesar 65 quilos e agora estou com 57 quilos. Percebi que precisava procurar um médico quando gastava todo meu dinheiro com comida e, depois que comia, me sentia muito culpada. Estou me tratando, vou ao médico sempre que é necessário porque eu não aguento mais, me sinto presa, me sinto só! Mesmo estando rodeada de tantas pessoas que me amam”, disse.

Como todas as portadores de bulimia, Ana usou de recursos extremos para emagrecer. “Eu comia e colocava tudo para fora. Café, almoço e jantar, tudo o que eu comia! Também tomei muito laxante para ver se ajudava. Já pensei até em parar de comer. Isso me fez muito mal. Fiquei com gastrite crônica, sinto muita tontura, dores na garganta e, de tanto eu forçar para vomitar, meu nariz começou a sangrar”, contou.

Questionada sobre como está o tratamento, ela respondeu que ainda tem muitas recaídas, mas está tentando manter uma boa alimentação e emagrecer de forma saudável. “Eu me decepciono cada vez que tenho uma recaída. Eu choro muito, fico muito triste. Antes eu vomitava todo dia. Agora consigo ficar 4 dias sem vomitar até ter uma nova recaída. Mas estou me tratando para perder esses quilos com saúde. Minha família me inspira a fazer isso, eu a amo muito! Ela me dá muita força”, revelou.

A nutricionista Renata Ferreira explicou a importância de o paciente procurar um médico após perceber os primeiros sintomas. “A partir do momento que é diagnosticada a doença, o tratamento é realizado por toda a vida. Ainda é um desafio para a medicina, pela alta taxa de mortalidade por distúrbios alimentares, entre os transtornos psiquiátricos.” Segundo ela, a intensidade do tratamento depende exclusivamente da resposta do paciente. “Muitas vezes o paciente não reconhece que está doente e precisa de ajuda. Por isso a participação da família e de pessoas ligadas a ele é fundamental para o sucesso do tratamento.”

O distúrbio alimentar é uma doença silenciosa e muito séria. Sendo assim, é muito importante prestar atenção aos sintomas. “A família é fundamental para identificar os primeiros sintomas antes do diagnóstico. Caso o familiar perceba algum sintoma, é necessário procurar ajuda. Em todo o País já existem clínicas específicas para o tratamento da doença”, aconselhou Renata.

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* Publicado originalmente no Adnews 37 (Abril/2015)