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Superando a perda de um filho

Gerúndio é uma das formas nominais do verbo, significa uma ação em andamento, um processo ainda não acabado. Quando se fala superando uma perda é exatamente isto: um processo inacabado, algo que vamos exercitando momento a momento, dia após dia, de força em força. Se pudéssemos colocar como uma das estações bem definidas do ano, diríamos que essa perda seria um inverno bem tenebroso, com bastantes trovoadas e assustadores relâmpagos, com muitos temporais, carregadíssimo de densas nuvens.

Quando perdemos um ente querido, nos deparamos com pessoas falando as mesmas palavras: “Todos nós um dia passaremos por isso”, ou “O futuro só a Deus pertence”, ou “Um dia nos encontraremos”, ou “Foi a vontade de Deus”, ou “Está melhor que nós”, ou ainda “Poderia ter sido muito pior”. As intenções de consolo podem ser sinceras e solidárias, mas é fato que há momentos em que precisamos ir além. Nós, como crentes em Cristo Jesus, temos a certeza da ressurreição, mas isso não elimina o vazio e a grande dor de sermos forçados a nos separar de alguém que tanto amamos e com quem queríamos viver o resto da vida.

Há exatamente quatro anos, dois meses e treze dias (período em que está sendo escrito o artigo), perdi minha filha número dois, pois fui agraciada por Deus de poder gerar três filhas. Ela tinha onze anos de idade, menina alegre, crente, que amava a Jesus e sua família, como também sua igreja. Porém, tinha uma doença congênita que nos fazia viver intensamente. Quando veio o diagnóstico foi um choque, choque por não saber nada sobre a doença: como cuidar? Como seria o curso da vida? Tanto o da dela como o da nossa. Então chega a terrível notícia de que ela teria uma sobrevida curta. Foram anos de idas e vindas aos hospitais, e isso já nos inspirava saudades antecipadas.

Mesmo tendo a certeza do curto período de vida (dada pelos médicos), confiávamos em Deus e críamos que Ele poderia fazer um milagre. Mas Ele não quis fazer o milagre que queríamos, e sim o que Ele queria; tomou-a para si. Estava, eu, na sala de espera da UTI quando a enfermeira me chamou, pois eu disse que quando ela estivesse partindo gostaria de estar perto. Quando entrei e olhei as máquinas, segurei em sua mão e comecei a cantar e a dizer: “Deus está com você, mamãe também, papai está (logo em seguida meu marido entra na sala)…” e, em lágrimas, comecei a cantar em seu ouvido…

O ciclo natural da vida é o filho sepultar o pai, quando ocorre o inverso há uma dificuldade maior em assimilar uma perda tão precoce. Então, vêm os desafios da ausência, e o luto é a tristeza oriunda dessa subtração, é discernir o vazio gerado pela perda do ente querido, é enterrar alguém que para nós ainda vive, é a melancólica descoberta de que algumas coisas que eram tão importantes não têm mais importância nenhuma, é um sentimento de incapacidade, é terrível…

Nos primeiros dias do luto, fiquei meio que anestesiada, pensando estar bem, que ela ainda estava hospitalizada. Os dias foram se passando, e eu não estava indo ao hospital (que falta estava me fazendo). Percebi a ausência, então foi como se uma flecha aguda furasse meu peito. É uma dor incontrolável, a alma grita, uma angústia que vem das entranhas (sem palavras), inexplicável. Só quem passou sabe. O livro do profeta Jeremias diz: “Clama a mim, e responder-te-ei…” (Jr 33.3). Gritei com as forças que ainda me restavam: “Deus, por que o Senhor não me permitiu chorar como deveria no momento? E agora esta dor tão grande?”. No dia do sepultamento, quis me fazer forte para que outros vissem uma fortaleza que não existia, pois diante da perda de um filho não há quem seja forte.

Como aceitar a vontade de Deus? Alguns não aceitam a morte de queridos por achar que estão perdendo e, até mesmo, por pensar que outros acham que não havia sentimento para com a pessoa que partiu… e nos sentimos desleais.

Como retomar a vida? Mostrar para a sociedade que estamos vivos, quando ainda há uma lacuna tão grande dentro de nós? Lacuna esta que tentamos preencher de várias formas, mas que jeito dar? Digo como disse o profeta Jó: “Se eu falar, a minha dor não cessa…” (Jó 16.6), a partir daí vamos reconhecendo a soberania de Deus, o quanto Ele é poderoso… Cada dia eu dizia, aliás digo: “Senhor, Tu és soberano, ajuda-me a reconhecer, a enxergar, a sentir, a viver isto!”.

Como crentes em Jesus sabemos que a morte não é uma separação eterna. E o mesmo Jesus sentiu a dor dos que ficam e também compreendeu a dor de Marta e Maria (Jo 11.34, 35). A presença confortadora de Jesus chega na hora certa. A superação deve ser buscada diariamente, na força da fé em Deus, sabendo que um dia até a morte será aniquilada.

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* Publicado originalmente no Adnews 37 (Abril/2015)